• Natalia Baranov

A primeira vez a gente nunca esquece, e sempre quer mais....

Atualizado: 23 de Set de 2019

Minha primeira viagem de verdade, pra fora do Estado de SP, uma viagem sem os pais e sem ser a trabalho, foi em Junho de 2010 e foi decidido em 2 dias depois de eu pedir as contas de uma multinacional que eu trabalhava e iria começar em 10 dias em uma outra. Eu estava estressada e ansiosa pela mudança, e também havia terminado um relacionamento de 5 anos, então decidi que ia viajar de qualquer maneira.

Eu tenho uma amiga maravilhosa, a Camila, que estava de férias da faculdade e queria comemorar seu aniversário, então ela me falou de irmos pra BA. Como éramos pobres (ainda somos, mas na época eu estava iniciando minha carreira), optamos por ficar em um Hostel. Eu nunca havia ficado, e nem sabia o que era um Hostel. Aqui no Brasil nós ainda conhecíamos como Albergues, e com aquele filme horroroso "O Albergue" eu tinha um enorme preconceito, mas era o único jeito e então lá fomos nós. Compramos nossa passagem cada uma em seu computador pra irmos e voltarmos juntas. Pois bem, a BA nos esperava.



A Camilinha é essa aí, ela parece que tem 10 anos, mas já uma mulher formada e professora (ela me incentivou muito a escrever as histórias do meu blog).... Essa cara de sono é porque nosso voo acho que era as 5 da manhã.

Pois bem, chegamos em Salvador - BA, terra de todos os Santos, eu estava extremamente excitada, empolgada, e não tinha medo nenhum do desconhecido. Engraçado como algumas pessoas tem medo de sair da sua cidade e ir sozinha pra um lugar que não se conhece, mas eu estava com a Camilinha, e formávamos uma ótima dupla, desbravando a cidade. A gente não tinha muita ideia de como chegaríamos no Hostel, então pegamos um ônibus no próprio aeroporto. Outra dica valiosa pra quem ta começando a viajar é: não tenha medo de perguntar, pergunte pra todo mundo que parecer confiável, trabalhadores do local, policiais, seguranças, ou no próprio balcão de informações que todo aeroporto tem, mas é importante seguir aquele velho ditado: Quem tem boca, vai à Roma (na verdade o ditado original não é assim, mas foi assim que aprendi e é assim que eu uso).

Atravessamos a cidade, Salvador não era uma cidade bonita, pelo menos eu não achei de primeiro momento, aliás preciso voltar lá pra conhecer os lugares bacanas da cidade. A gente praticamente atravessou a cidade de ônibus, e eu estava ansiosa, pois em um lugar diferente da minha cidade, e estava louca pra conversar com os nativos, conhecer a cultura, tudo. Na verdade eu fui pra BA com 3 objetivos bem definidos: conhecer o Pelourinho, comer Acarajé e saber o que a baiana tem....rs

Chegamos ao hostel, depois de quase uma hora de ônibus pela cidade. Estava um dia chuvoso e não deu pra irmos à praia, por onde passávamos parecia ser tudo meio feio, por isso não me empolguei muito com Salvador.

O Hostel era simplesmente sensacional, pela primeira vez que eu ficava em Hostel, tirei todo o preconceito logo de cara. Ficamos no Hostel do Porto, fui procurar o lynk, mas parece que não existe mais o site, ou foram descadastrados do HI (Hostel International), chamava albergue do Porto. O lugar era super aconchegante, havia redes por todos os lugares, os quartos batizados com nome de cantores baianos, e só havia gringos no local, eu achei tudo aquilo sensacional.



Mas eu e minha parceira de viagem queríamos sair logo para conhecer o Pelourinho, e lá fomos nós...pegamos um ônibus próximo e descemos em um dos locais mais visitados pelos turistas em Salvador. Estava um dia feio, chuvoso, e mesmo assim nós não desanimamos. Eu com meus 1,76, olhos claros, cabelos louros e cara de gringa, não teve jeito, os baianos nos abordavam mesmo, querendo enfiar as fitinhas do senhor do Bonfim nos nossos braços e eu tendo que explicar que eu era brasileiríssima, que sambava e tudo o mais. Eu achando que o baiano super simpático estava me dando uma fitinha de Senhor do Bonfim como forma de cordialidade, ele já foi colocando meu braço, mas no final você tem sempre que comprar algo.

Eu estava na Bahia, Pelourinho, eu tinha me sentir baiana, então fui la me caracterizar, e hoje olho essas fotos e penso, meu Deus, o que eu fiz??? hahaha



Bom, depois de me caraterizar como uma baiana falsiê, fui la comer a comida mais famosa da Bahia, um Acarajé feito pelas mãos de uma Baiana original do Pelourinho, e até hoje me arrependo, porque se tem uma coisa que aprendi nas viagens é não sair comendo tudo que se vê pela frente, as consequências podem ser uma intoxicação alimentar e dois dias perdidos de viagem dentro de um banheiro. Nesse caso não foi o Acarajé, mas eu já chego lá....

Eu contei que a Camilinha estava comemorando o aniversário dela, e sabe o que a essa pestinha me pediu de presente? uma visita a um centro de umbanda/candomblé, ela dizia: - "Nós estamos na Bahia Natalia, temos que receber o axé direto da Bahia". Bom eu cedi, quem resistia ao pedido de uma pequena grande amiga como a Camilinha?! Ah não era nada demais, claro, mas além de termos que pagar pra um cara que eu não confiava nos levar na periferia de Salvador (é sério o lugar era sinistro) a casa estava lotada de turistas gringos, acho que eramos as únicas brasileiras. O terreno do lugar era enorme, mas o lugar da cerimonia era minusculo, devia ter uns 40m2 e devia ter umas cinquenta baianas rodando e cantando em Iorubá (língua especifica dos rituais de afro-descendentes como o candomblé), e mais os visitantes, uma sala com umas 100 pessoas... eu estava de pé, a sala cheia, eu já tinha me perdido da minha parceira, e pra ajudar aquele acarajé começou a fazer efeito, era um mal estar que achava que ia morrer, então fui até a rua pra tomar um ar, mas o lugar era tão isolado, e chovia tanto que tinha que decidir em correr o risco de ficar em um lugar desconhecido e talvez perigoso ou desmaiar la dentro pelo calor e pelas consequências do acarajé. Graças a Deus, uma criança de uns 12 anos viu que eu estava passando mal e me levou pra sentar no fundo do terreiro, e me deu uma água, aquela garotinha foi um anjo, ela achava que eu era gringa, e perguntou se eu falava português, expliquei que morava em São Paulo, e ela queria saber se eu via muitos famosos, eu disse que não, mas ela não desistiu, me pediu pra levar ela junto comigo. Aquilo me feriu de uma tal forma, doeu em meu coração, que eu não sabia nem o que responder, mas expliquei que não podia, porque eu também não era rica em São Paulo, acho que ela entendeu, e finalmente o ritual acabou, e eu achei minha amiga. Camilinha estava em êxtase, tinha adorado, eu só queria ir embora, sair correndo, enfim o motorista nos levou sãs e salvas, chegamos no hostel, comemos uns 2 hot-dogs e planejamos acordar bem cedo para pegar o Catamarã em direção a Morro de São Paulo

Foram apenas 1 dia em Salvador, e eu já queria correr dali, a experiência não foi tão boa quanto esperava, mas ainda tínhamos o roteiro de ir a Morro de São Paulo e Itacaré.



Pra ir até Morro de São Paulo pegamos a Balsa pra Ilha de Itaparica, e depois pegamos um ônibus até Valença, não me lembro bem, mas demoramos quase umas 3 horas, a grana era curta e comíamos umas porcarias pelo caminho, um pastel de vento que um cara vendia no ônibus, e o medo de passar mal de novo estava sempre ao meu lado. Pra chegar a Morro de São Palo havia duas opções pegar um Catamarã que iria por alto-mar ou um barquinho pequeno que iria por um canal. Morro de São Paulo é terceiro maior pólo Turístico da Bahia e está situado ao sul da capital baiana Salvador e faz parte do único município arquipélago do Brasil dentro do conjunto de ilhas da Cidade de Cairu.Você pode pegar mais infos sobre esse lugar lindo da Bahia no site http://www.morrodesaopaulobahiabrasil.com, mas com o tempo vou colocando as dicas de roteiros no blog. Chegamos a Morro, um lugar lindo realmente, mas eu tive a impressão que era um lugar para casal, hoje seria perfeito ir com o namorado, mas naquela época eu estava era querendo "tocar o terror". Eu e Camilinha ficamos em uma pousada, que era praticamente o mesmo preço de um hostel, eu achei as pousadas e hotéis bem baratos. Depois de instaladas lá pelo final da tarde, procuramos um bar, e passamos a noite bebendo cerveja a um valor baratíssimo.


Quando estávamos chegando em Morro de São Paulo, no barquinho havia um casal de gringos, e eles estavam totalmente perdidos, pois não falavam nada em português (isso é uma coisa que me deixa intrigada nas minhas viagens em relação aos gringos que vem ao Brasil, eles quase nunca falam nossa língua, até acho isso corajoso da parte deles, mas eu normalmente quando vou fazer uma viagem internacional eu tento me familiarizar com a língua do local), e lá fui eu tentar ajudá-los com meu inglês tupi-guarani, e os dois ficaram tão gratos que grudaram na gente. Descobri que eles eram irmãos e britânicos, e estavam rodando o Brasil há alguns dias, ela era enfermeira e ele ainda estava estudando sei la para o que...enfim esse foi meu primeiro contato com gringos e percebi que eu adorava ajudar os caras, e era um ótimo treino pro meu inglês. Eu me sentia uma babá deles, pra ver se não iam se meter em enrascada... à noite, fomos jantar, e foi bem agradável o tempo que passamos juntos, mesmo com a dificuldade da língua, mas essa é uma das coisas que mais curto quando viajo, conhecer pessoas novas e aprender coisas novas com eles, sejam nativos, gringos ou até paulistas se encontrar pelo caminho. Acabamos perdendo o contato depois de uns anos, mas espero que eles estejam viajando por aí...



Bom, essas foram as ultimas fotos, porque minha máquina resolveu quebrar e ai adeus registro da minha primeira viagem....mas hoje nessa tecnologia que vivemos hoje, acho até legal vivenciar os momentos e não se prender tanto a ficar registrando tudo, tenho ótimas lembranças dessa viagem...

Ficamos 2 dias em Morro de São Paulo e partimos a Itacaré. Voltamos de barquinho a Valença e depois pegamos um busão direto pra Itacaré. A minha sorte em não morrer de fome e mais 3 horas de viagem era que a Camilinha tinha uma mania de colocar várias comidas do café da manhã do hostel/pousada na bolsa, para comermos mais tarde (Valew Camilinha por não me deixar passar fome nas estradas da Bahia). Chegamos a Itacaré Particularmente essa foi a parte mais legal da viagem, eu adorei Itacaré, achei bem roots, e havia várias praias a desbravar. Uma das praia mais famosas e lindas do Brasil fica em Itacaré, Prainha (como a máquina de fotografia quebrou e não tínhamos celular, retirei uma foto da internet do site itacaré.com)



Pra chegar até essa praia tivemos que pegar uma trilha de quase uma hora, mas que foi "massa" (como dizem os baianos). Havia mais algumas pessoas na trilha e não foi tão hard assim chegar nesse paraíso. Uma das partes mais legais da trilha é uma pequena cachoeira, e tem também uns esquemas de arvorismo no caminho, eu curto bastante umas trilhas e quando você chega ao destino final vale o esforço.

Mas como nada em minhas viagens é tudo tranquilo, enquanto curtia a praia, decidi entrar no mar pra tirar a "ziquezira" e as ondas bem fortes me derrubaram e eu torci meu joelho esquerdo (na época eu pesava mais de 100kg e meu joelho já não era muito bom). Eu não conseguia pisar no chão, estava chorando de dor, e Camilinha com toda sua calma pediu pra ficar tranquila, que se fosse preciso ela ia chamar um helicóptero. Um helicopéro????!!!! Essa minha amiga é doida demais, e nem dei atenção pra loucura dela.... esperei mais alguns minutos pra ver se a dor passava e pelo menos conseguia me manter em pé....com muita dificuldade fiz a trilha de volta com a ajuda de alguns garotos nativos que viram minha situação, e Camilinha só ria. Chegando ao centrinho de Itacaré resolvemos almoçar, e eu vivendo perigosamente essa viagem decidi comer um bobó de polvo, e adivinhem.... não sei se foi o óleo de dendê, o polvo ou o axé da Bahia, só sei que foi a pior decisão que tomei nessa viagem, mas foram dois dias trilhando da cama pro banheiro... foram dois dias de vômitos e diarreia, eu já estava tão desesperada que não tinha mais reza pra orixá que eu fizesse que me ajudasse a melhorar, e pra sorte da minha amiga, esses dois dias só chovia, então ela pode me dar apoio enquanto eu quase morria na Bahia.

Eu só tinha mais um dia pra aproveitar a Bahia, eu iria começar a trabalhar na próxima segunda-feira em um novo emprego. Mas eu estava morrendo, e por algum milagre de algum orixá eu melhorei na ultima sexta-feira, e decidi ir ao único forró do local. Eu amo forró, amo dançar, e dançar descalça com os baianos.... ah! eu precisava fazer isso.... enfim eu e Camilinha saímos, uns gringos tocavam um reggae raiz em um bar local...eu dancei e nem lembrava do joelho estourado, da intoxicação alimentar que me me acometeu, eu só queria curtir minhas últimas horas na Bahia... era uma sensação de liberdade, minha independência financeira e dos meus pais me proporcionaram conhecer locais lindos, contato com a natureza, conhecer gringos, fazer amizades e poder escutar um reggae raiz naquela terra abençoada foi SENSACIONAL!!!!

Bem, ultimo dia, vamos embora né Camila! e toca pra Salvador até o aeroporto. Chegando lá, nosso voo estava marcado para meia-noite, Camila fez seu check-in e na minha vez a atendente não encontrava meu nome no voo, e eu pensando: "Essa menina não sabe o que está fazendo, minha confirmação de voo está certa, é hoje à meia noite!" - Até que ela me disse: "Senhora, a senhora está atrasada há 24 horas, o seu voo era à meia-noite de sexta pra sábado". Eu só pude falar: me ferrei... Eu ia começar um novo trabalho na segunda, estava desidratada, com tranças no cabelo, como eu ia chegar em São Paulo a tempo. Corri em todos os guichês pra achar uma passagem, e com as bençãos dos orixás achei uma pra domingo de manhã a tempo de chegar em São Paulo. Na época paguei uma nota, um dinheiro que eu nem tinha... Camilinha pegou seu avião e eu fiquei la no aeroporto, deitada no chão, esperando meu voo. Consegui chegar em São Paulo a tempo de tirar aquelas tranças e voltar a louca realidade de Sampa.

Foram tantas coisas de errado que aconteceram nessa viagem: Acarajé detonando meu estomago, Ritual de Candomblé na periferia de Salvador, fome nas estradas para Morro de São Paulo e Itacaré, maquina fotográfica quebrada, joelho ferrado na trilha, intoxicação alimentar em nível Hard, perda de voo de volta a minha casa... Mas é isso que faz de uma viagem inesquecível, os imprevistos, e as coisas loucas que ficam registrados em nossa mente. Como dizem por ai "Shit happens" (merdas acontecem), mas foram as coisas ruins que fizeram da minha primeira viagem inesquecível e querer sempre mais.


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